Olho para o exemplar de O Vermelho e o Negro na minha mesa de cabeceira e me pergunto: será que Julien Sorel sobreviveria a um match de aplicativo hoje? Stendhal levou centenas de páginas para dissecar a alma desse jovem ambicioso, mas, no século XXI, Julien estaria apenas bloqueando a ex por inveja social e postando frases melancólicas na internet.
Confesso uma relação ambivalente com o clássico. O vermelho das fardas e o negro das batinas prometem uma paixão de tirar o fôlego — daquelas que fazem a gente escalar muros ou mandar um áudio de oito minutos para o crush às três da manhã. Por outro lado, que homem insuportável! Julien ama a Sra. de Rênal e Mathilde, mas o grande amor de sua vida é o próprio ego ferido. É o clássico boy lixo literário que a gente julga com força, mas continua lendo só para ver até onde vai o delírio.
Para a nossa coluna Julietas & Romeus, a ironia é evidente. Stendhal inventou a "cristalização do amor": cobrir o outro de perfeições imaginárias — igualzinho a quando stalkeamos o crush e decidimos que ele é inteligente, culto e sensível com base em duas fotos mal iluminadas. A Sra. de Rênal cristalizou tanto que quase perdeu a cabeça. Mathilde, por sua vez, amava o drama: quanto mais rude Julien era, mais ela suspirava, provando que o gene do "gosto por homem difícil" é milenar.
Se vivesse hoje, Julien estaria filosofando sobre como o sistema o oprime, usando uma jaqueta de couro (o "vermelho" moderno) e mantendo um perfil misterioso no Instagram (o "negro" tétrico). E eu, jornalista romântica e incorrigível, estaria escrevendo uma crônica sobre seu olhar distante, sabendo perfeitamente que ele só pensa em como subir na vida às custas da minha paciência.
No fim das contas, o amor é uma tragédia febril. Mas continuo preferindo o risco do fogo cruzado entre o vermelho da paixão e o negro da lucidez à apatia dos amores mornos.
E você, leitora, já entregou o coração a algum Julien Sorel disfarçado de alma sensível esta semana?