Há algo profundamente humano no peso do tempo, mas sei que os animais também carregam seus próprios calendários na pele e na memória.
Aos dezesseis anos e sete meses, Cebolinha já não se sustenta sozinho — seja pela paralisia nas patas traseiras que o acompanha desde os quatro anos, por causa de um problema genético na infância, seja pelo enfraquecimento natural da idade. As rodinhas da cadeira de rodas substituem suas patas traseiras, fazendo aquele som ritmado que há muito se tornou a trilha sonora da minha casa. Mas o que mais me comove não é apenas o peso dos anos, e sim o da ausência. Pouco antes, partiu sua companheira de vida inteira, com quem ele dividiu o mesmo tapete por quase dezesseis anos.
Costumamos achar que a dor do luto nos pertence com exclusividade. Que tolice a minha pensar assim. Nos primeiros dias, vi Cebolinha parar diante da caminha vazia e cheirar o cobertor que ainda guardava o cheiro dela. Ele não chorou com latidos; murchou. Passou a buscar os lugares onde o sol demorava mais, procurando o calor dela. A gente esquece que eles também sentem falta do roçar de pelo, da respiração do outro na madrugada e da rotina compartilhada.
Olhando-o agora em sua velhice sobre rodas, percebo que o luto não tem espécie. Cebolinha carrega a ausência no passo lento e na forma como ergue a cabeça ao escutar a porta se abrir. Vê-lo assim é a prova mais bonita — e dolorosa — de que a alma não é exclusividade nossa.
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