O espelho às avessas
Dizem que os pets vão absorvendo a nossa alma e os nossos trejeitos. Com o Cebolinha, meu fiel companheiro de dezesseis anos e oito meses, isso é uma certeza diária. Aos quatro anos, uma questão genética tirou o movimento das patinhas traseiras dele, mas o mundo nunca desaba para quem nasce com tanta urgência de viver.
Para ele, a cadeirinha de rodas nunca é peso, mas sim um par de asas mecânicas. E a prova maior da nossa simbiose é o amor visceral pela rua. Assim como eu, que encontro nas caminhadas a inspiração para o dia a dia, o Cebolinha se transforma ao cruzar a porta. O focinho erguido, os olhos atentos e os bigodes brancos ao vento transformam cada passeio em uma pauta urgente, um manifesto vivo contra a imobilidade.
Hoje, os passos das rodinhas são mais lentos e o tempo nos cobra a sabedoria dos pelinhos brancos no focinho. Mas, no fundo, seguimos iguais: dois veteranos que reescrevem o destino todos os dias com rodas e palavras, provando que caminhar nunca depende apenas de patas, mas da vontade indomável de seguir em frente.