Offline
VEM ZONA NORTE

Menu
Coluna Julietas & Romeus: O Algoritmo do Coração: Razão, Sensibilidade e o "Visualizado" de Jane Austen
Por Guto Villanova
Publicado em 22/09/2026 17:19 • Atualizado 22/09/2026 17:20
Cultura
O Algoritmo do Coração: Razão, Sensibilidade e o "Visualizado" de Jane Austen
 
Jane Austen com certeza bateria a palma da mão na testa se visse que, duzentos anos depois, continuamos a sofrer exatamente pelos mesmos motivos, só que com Wi-Fi. Reler Razão e Sensibilidade é abrir o feed de notícias de um passado que insiste em morar no nosso peito: ao ver Elinor e Marianne Dashwood, percebo que os séculos trocaram de figurino, mas a velha dança do afeto continua a mesma.
 
Eu já fui Marianne. Já quis acreditar que a intensidade era a única prova de amor e que certas paixões eram inegociáveis só porque faziam estrondo no coração. Também já fui Elinor: aquela que engole o choro em silêncio, justifica a ausência dos outros e espera que o tempo responda o que a coragem não teve forças para perguntar.
 
A tecnologia apenas deu uma nova roupagem ao drama. Jane Austen lidava com cartas seladas e esperas à janela; hoje, com o celular na mão, sofremos com a frieza do “visualizado” sem resposta. Marianne faria desabafos públicos nas redes sociais; Elinor apagaria a mensagem três vezes antes de desistir. E o eterno Willoughby? Segue firme entre nós, reencarnado naquele que sabe acender a fogueira, mas corre ao primeiro sinal de compromisso.
O cenário mudou, mas o nosso jeito de sofrer por amor continua igual. No século XIX, o romance precisava sobreviver às regras da sociedade; hoje, precisa resistir ao excesso de opções, à pressa e à facilidade com que descartamos uns aos outros.
 
No fim, compreendi que nenhuma das duas irmãs, sozinha, dá conta dessa bagunça. Precisamos da coragem de Marianne para o medo não nos paralisar, e da lucidez de Elinor para a paixão não nos cegar. Amar não é escolher entre a razão e a sensibilidade — é aprender a sentir sem se perder de si mesmo. Porque o verdadeiro milagre nunca foi encontrar quem incendiasse a nossa vida, mas sim achar alguém diante de quem a gente possa, enfim, continuar inteira.
 
 
 
 
 
Comentários