Há livros que habitam nossa estante como velhos conhecidos, daqueles que a gente não apenas lê, mas visita. "E o Vento Levou" (Gone with the Wind), de Margaret Mitchell, sempre ocupou um lugar ambíguo e fascinante para mim.
É uma obra monumental que desafia o tempo, mas que exige do leitor contemporâneo um olhar profundamente crítico. Por um lado, é impossível não se render ao fôlego épico e à força indomável de Scarlett O'Hara — a sobrevivente pragmática que olha para os escombros de Tara e jura nunca mais passar fome. Quem nunca precisou reconstruir o próprio mundo a partir do pó?
Por outro lado, o vento que sopra pelas páginas de Mitchell carrega também as sombras de um Sul americano idealizado e a romantização de estruturas cruéis que a literatura tem o dever de examinar, jamais de aplaudir. Ler esse clássico hoje é lembrar que os livros são filhos de seus tempos, mas nós somos os juízes do presente: ler com olhar crítico é entender a arte como território de debate.
Fecho o livro e olho pela janela, vendo a tarde cair mansa sobre as ruas de Porto Alegre. O vento lá fora balança as copas das árvores, lembrando-nos que impérios caem, mas a ânsia humana de reescrever o próprio destino continua sendo nossa aventura mais obstinada.
Afinal, amanhã sempre será outro dia!
#eoventolevou #Literatura #Clássicos #Crônica #PortoAlegre #Escritora #angelicarizzi