Há quem reduza o afeto dos animais a um mero instinto de sobrevivência. Uma falácia.
Olho para o meu inseparável Cebolinha, aos dezesseis anos e sete meses, e encontro a resistência serena de quem desafia o tempo. As patinhas traseiras já não respondem aos comandos da juventude, mas o carrinho adaptado devolveu-lhe a autonomia.
A audição já falha e a névoa da catarata cobre os olhos, mas o radar do afeto permanece intacto. Basta eu dar dois passos para que a cabecinha gire em minha direção. Para ele, o mundo inteiro cabe aqui, no meu abraço.
Na rotina dos cuidados diários, o que se impõe não é o peso da responsabilidade, mas uma troca sagrada: eu cuido dos passos que lhe faltam, e ele cuida da minha alma.
Conviver com um cão idoso é aceitar a transitoriedade da existência enquanto se celebra o presente. Eles nos emprestam um pedaço do próprio céu no ritmo compassado de um carrinho de rodinhas.
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