Olho para o termômetro na parede e depois para a janela. Lá fora, Porto Alegre enfrenta aquele inverno rigoroso que quem é do Sul conhece bem: o vento minuano sopra forte, cortando a rua, e o frio parece entrar até os ossos. Olho para o lado e lá está ele, o meu Cebolinha, deitadinho na sua caminha cheia de cobertas, usando sua roupinha de lã mais quentinha.
Para quem me acompanha, o Cebolinha é o cãozinho cadeirante que inspirou meus livros, um personagem da vida real que ganhou o coração de tanta gente. Mas, no aconchego do nosso lar, ele é o meu companheiro de jornada. Hoje, com seus dezesseis anos e meio, cada pequena rotina ganha um peso de ouro. Ele já é um senhorzinho, um idoso cheio de resiliência e coragem, mas que agora, mais do que nunca, sente o peso dos dias gélidos nas suas patinhas dianteiras e no seu corpinho que tanto já lutou e superou.
Muitos me perguntam: "Angélica, com esse frio do Sul, como você faz com os passeios dele?". Afinal, a cabecinha do Cebolinha continua querendo desbravar o mundo, mesmo que o corpinho precise de mais cuidados. A rua, com o asfalto congelante e a umidade, se torna um desafio quase impossível para a sua cadeirinha de rodas e para a sua saúde delicada nessa idade.
A solução que encontramos para manter a alegria dele acesa são os nossos passeios em locais fechados.
Quando o frio aperta demais, nós nos arrumamos — eu com meu casaco pesado e ele todo empacotado, parecendo um pacotinho de amor sobre rodas — e vamos para um shopping pet friendly ou uma galeria aquecida. Assim que passamos da porta e sentimos aquele ar quentinho do ambiente, o olhar do Cebolinha muda. É como se ele ganhasse uma nova dose de juventude.
Coloco-o na sua cadeirinha e, no chão liso e plano dos corredores, ele volta a ser o piloto da sua própria história. Mesmo aos dezesseis anos e meio, com o passinho mais lento e ritmado, ele desliza com uma dignidade que me enche os olhos de lágrimas. Ele vai cheirando os cantinhos, olhando as vitrines e, claro, conquistando as pessoas por onde passa.
O mais lindo desses passeios de inverno é ver o calor humano que o Cebolinha desperta. Em meio ao vaivém de pessoas apressadas e cheias de casacos, a presença dele faz o mundo parar por um instante. As pessoas rompem o gelo do inverno gaúcho para se abaixar, dar um carinho na cabecinha dele e me dizer o quanto ele é um exemplo de superação.
Esses passeios no quentinho são o nosso refúgio. Eles me provam, a cada inverno, que não importa o quão gelado esteja o mundo lá fora ou quão avançada esteja a idade do meu grande amigo: enquanto houver amor, adaptação e uma cadeirinha de rodas pronta para rodar, nós sempre encontraremos um lugar quentinho para sermos felizes juntos.